Guerreiros

soldado_gato

Certa vez um pupilo perguntou ao seu mestre – Porque há tantas guerras se todos querem viver em paz?

Sem levantar o olhar de seus afazeres o mestre deu sua resposta, típica de mestres.

– Por que somos únicos, mas cegos.

Intrigado com a resposta que nada respondia, o jovem respondeu ríspido.

– Para mim vejo muito bem!

O mestre levantou então seu olhar para o jovem rapaz, achando graça de sua falta de respeito com seus ensinamentos. E perguntou zombeteiro

– E o que você vê?

– Vejo… vejo muita coisa!

– Como ME vê?

 Com toda sua jovem arrogância e muita eloquência o rapaz descreveu o mestre, exemplificando, relacionando com todos seus aprendizados, exaltando-o e exibindo seu conhecimento e percepção.

– Não tenho defeitos então?

– Hã? Eh, claro, todos tem seus defeitos, creio, bom, é o que aprendi.

Sem querer ver ou verbalizar os defeitos de seu mestre, o rapaz limitou seu olhar a trançar a palha e deixou seus pensamentos brincarem em trampolins de temas variados.

 Divertindo-se com o comportamento de seu aprendiz o jovem senhor focou seus olhos profundos no rapaz.

– E fisicamente como sou? Estou curioso para saber!

– Não seria melhor olhar no espelho? E o que isso tem a ver com a minha pergunta?

– Vejo que aprenderá muito com essa pressa toda. – Rio-se o senhor- Bom, sua escolha. Me diga então: acha que uma criança me descreveria física e emocionalmente como você?

– Não.

– Acha que daqui 20 anos me verá como me vê hoje?

– Não, acho que te conhecerei melhor e terá mais rugas, mas, o que isso tem a ver?

O mestre acertou uma pedrinha em cheio na testa do rapaz.

 – Acabo de te provar que é cego!

– Ai. Não. Continuo te vendo, te ouvindo. Tudo bem, o tempo passa as coisas mudam, mas não quer dizer que eu seja alheio a elas.

– As pessoas mudam mesmo ou apenas passam a se conhecer?

– Deixarei de ser eu se tiver mais rugas? – O rapaz acenou em negativa – Mas para olhos desconhecidos serei talvez um velhinho corcunda e não um jovem aventureiro como já fui e como já fui visto.

“Disse que veio a minha procura por ter um sentimento de vazio, como se nada pudesse te satisfazer certo? E que saiu de sua cidade, largou sua pesquisa, veio para esse maravilhoso ‘monte de mato’, pois havia cometido erros demais procurando preencher este vazio.

E se amanhã descobrir que este vazio é porque você não está aqui para viver atrás de uma mesa elaborando projetos? Que na verdade é um ator! Que está aqui para fazer. Executar o sonho escrito de teóricos, que sentiriam esse mesmo vazio se fossem executores. Que sua função é mudar o mundo com ações?

E então, se depois de mudar toda sua vida, nunca mais sentir esse vazio, nunca mais for sugado para este buraco negro? Depois de tudo, não será mais você?”

– Não! Pelo contrário, se eu descobrisse algo assim, eu sentiria algo como… ainda mais eu!

– Acaba de me provar que também sou cego! Veja, estamos fazendo progressos. – frente a expressão de incompreensão do jovem o senhor continuou – Sou incapaz de te ver por completo, saber quem é você. Afinal, nem você ainda sabe.

Após uma pausa, tentando compreender ou ao menos memorizar para refletir depois, o jovem encontrou novamente a lacuna.

– Mas, e a guerra?

– Ah a guerra! A guerra que travamos entre nossos irmãos vem da guerra interior, esta sim é a batalha mais difícil de nossas vidas. “Temos que guerrear contra nossos medos, contra nossa criação, contra tudo que nos foi colocado as vezes, para encontrarmos a nós sem preconceitos. Temos medo de nos conhecermos e não aceitarmos. Sem saber que quando você se conhece, você se aceita. Se não se aceitou é porque não se conheceu.

Contudo, somos humanos. Procuramos atalhos. E assim como, ainda sem precisar, com medo do urso o homem o mata para mostrar sua força. Nós vemos nossos medos em nossos iguais e os matamos antes que nos matem, uma pilha de corpos, de medos empilhados, te torna então um herói. E nossos adversários em guerras? Fazem o mesmo!”

O jovem continuou com sua expressão de duvida, contudo, o senhor já estava impaciente de ter que dar tão detalhada explicação, seus pupilos anteriores teriam se contentado com a primeira resposta… se limitou então a um resumo.

– Caso se esqueça de tudo isso apenas lembre-se:

Quem mais teme, da o primeiro tiro. Quem ainda teme segue com os demais. E assim se faz a guerra na procura da paz.

the_face_of_war_daliSalvador Dali – The Face of War

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