Suspiro

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Eu sou a burguesa que lê algo como Paulo Freire, senta na arquibancada, saca do bolso de seu paletó de veludo vermelho um monóculo, o qual posiciona metodicamente frente ao olho, para observar e fazer anotações (para sua tese) sobre a análise da arena do ensino público.
Onde leões comem os de força mediana, os pobres são alimentados pelo pão e circo e os ricos observam o teatro que armaram.

Do ICQ ao Facebook

icq

Sou do tempo do ICQ, aquela janelinha cinza, com um número enorme tipo o número de telefone atual (com DDD) do estado de São Paulo. Sou da época que tínhamos orgulho de saber aquele número inteiro de cabeça, que amávamos o Oh ow.

Mas chegou o MSN com um super visual Microsoft! Todo arredondado, com carinhas e fácil localização de amigos. O ICQ se tornou uma mera janelinha com florzinhas cinzas mortas…

O império do MSN foi longo e duradouro para os tempos de internet, agora o Google ja era uma grande ferramenta de busca, o Cadê? havia sido esquecido, o yahoo busca então…

E então…. surge aquele fundo roxo/lilás, que sério, competiu em feminilidade com o falecido ICQ. O orkut!

O Orkut foi para os brasileiros uma grande inovação da internet, foi basicamente a reinvenção da vovó fofoqueira do bairro!

Por ele aprendemos a saber de tudo da vida de todos,  e surgiram brigas de namorados, amigos de longa data e grandes amores, afinal “Ele tb escova o dente andando como eu!!!”

Mas, seu sucesso foi seu fracasso, o público foi aumentando, e não farei muitos comentários sobre esta fase, fora que quem foi positivo apenas se divertiu com as fotos da piscina de caixa d’água, aproveitou para denunciar violência contra animais, ou roubos de ladrões estúpidos que publicavam a peça do furto…

Os mais descolados já estavam no Facebook há meses quando o orkut começou a perder seu império.

Uma página de relacionamentos menos rosa, quero dizer, lilás, roxa… enfim. Com uma cor neutra. Com MUITA informação que honestamente me levou a fazer dois perfis, pois não consegui usar logo de primeira, não entendi nada!

Muitos lesados como eu, sofreram do mesmo mal, ainda que nascidos na era da informática. A adaptação com aquelas publicidades inúmeras, e com a ausência de comunidades foi difícil, mas nada que o Farmville real não pudesse resolver! Afinal, o orkut a essa altura parecia apenas uma cópia mal feita do Facebook… e creio que era…
Mais e mais pessoas passaram a jogar o Facebook, quero dizer, usar.
O Google ja havia dominado o mundo e seu nome ja estava em celulares!
Os celulares evoluíram, e o facebook se tornou parte da vida das pessoas, uma dependência, um lugar em que você entra e nunca mais sai.

Devo aquí abrir um parenteses ( Achoq eu apenas Chapolin Colorado poderia explicar como que brasileiros conseguem viciar em uma internet tão lerda e com tão pouca tecnologia! Acho que é puro masoquismo)

o MSN não contava com isso…

Honestamente, não sei quando ele veio a falecer virtualmente, sei que quando o acordo foi firmado com o Skype era chegado seu fim.

Tudo isso foi para dizer que sob uma análise longa, percebi que em todas essas mudanças os mais descoladinhos, descolavam da modinha e partiam para a próxima inovação tecnológica, esta saturava e eles partiam para a próxima.

A nova moda é fechar a conta do facebook alegando preferir viver e ter amigos de verdade…

Quem não tem facebook se orgulha, muitos pops estão fechando a conta.

Todavia não vi nenhum meio social novo exceto esses aplicativos simpáticos de celular, mas nada no nível de um orkut, facebook. Ao que parece uma moda retrô está tomando conta de tudo, tvs, geladeiras, roupas, seriados.

E minha conclusão é, vou abrir uma empresa de papel de cartas!

A caça

Para quem nada sabe, vê apenas uma terra árida, um homem com uma ave. Treinada para fazer para ele o que nasceu para fazer para si. Esta é a realidade quando não há história, mas hoje peço licença para tornar a imagem um sentimento.

Não contarei uma história com heróis e bandidos, pois conto a realidade e nela, não é possível dissernir o bem do mal.

Conto primeiro a história de um casal, um homem zeloso, preocupado com o futuro, prepara seu ninho e procura uma parceira, a qual terá ao seu lado por toda a vida. Juntos constroem um lar e tem dois filhos, os quais a duras penas tentam sustentar. O pai passa a maior parte do dia fora, para que tenham alimentos, a mãe protegendo os filhos.

Do outro lado vemos fome e caça, habilidade e fragilidade, um pai ensinando seu filho a sobreviver no mundo em que nasceu, em sua cultura. A hora de mostrar seu valor se aproximava, e nosso homem precisava se tornar um homem.

Medo e coragem, subiram com cuidado, pernas trêmulas, mãos suadas; cientes de que um escorregão levaria a morte. Uma escalada interminável para conquistar uma posição, um status. Garantir a vida.

Uma distração e o casal de amantes, o pai zeloso e sua parceira , perdem mais um filho.

O rapaz rapidamente o colocou em um saco e desceu. Desceu em velocidade dobrada. Um deslize, o fez recuperar a atenção. Mas na sacola estava sua vitória, sua honra, sua prova acima de tudo, para si mesmo, de sua força. Agora era um homem… será?

Esta foi apenas a primeira tarefa, a mais perigosa, sim, mas ainda a mais fácil. Possuia o falcão, mas agora precisava treina-lo.

Dias e meses, sem sucesso. Se o falcão não aprendesse a voar como deveria, a caçar como deveria, não passaria de um estorvo. As saudades da família apertavam, o treino seguia.

Ao longe o filho, humano, homem, caçador, observava sua caça viva, sentindo na ponta de suas asas a direção a seguir, sentia cada mudança da brisa, a umidade na aridez, aprendiam como se fossem um.

Então, como se feito do próprio vento, os olhos focaram, as asas, no ar, sentiram o caminho a ser cruzado e em um mergulho, em suas garras estava a presa. Uma presa dois caçadores, a mesma vitória.

Caçadores agora partilhavam as mesmas batidas em emoção, o mesmo sangue de vitória.

O falcão, agora tranquilo, soava como para sua mãe, o homem, agora um homem completo. Em uma relação em que hora pai, hora filho, estava ciente de que nenhum humano lhe ensinaria sobre esta mãe, que lhes dava água e alimento, que formava tempestades e brisas suaves nas quais planava seu companheiro, capaz de se mover no ar como o vento, ser o maior dos predadores e voltar para o frágil mas confiante humano/homem, simplesmente por saber que seus braços sempre serão o galho mais seguro para se pousar.

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As vezes damos o passo mais difícil, cansados e felizes com a conquista. Esquecemos que devemos continuar a caminhar para atingir.

As vezes nos achamos fortes, queremos viver a liberdade, as aventuras, mas sem um porto seguro, nos cansamos, nos desiludimos e pouco a pouco perdemos o eixo, o brilho.

As vezes simplesmente não paramos para sentar e aprender com quem está aqui há tantos anos e tem em sua terra a matéria e conhecimento de gerações de vidas.