Nasci em uma guerra

Nasci em uma guerra, mas não sabia disso. A primeira emoção a qual fui apresentada foi a dor, chorei, mas chorar não fez passar. Me acostumei com aquela realidade. Não havia outra a ser escolhida.

Conforme caminhava no campo de batalha conheci um mundo repleto de emoções, sensações, aprendizados, os passos eram difíceis, pesados, as vezes eu caía e tinha uma mão estendida pra me erguer. Mas muitas vezes meus amigos e familiares estavam ocupados demais salvando suas próprias vidas para poderem me ajudar e eu precisava ter forças para me erguer sozinha.

Aprendi o que era a alegria, o poder de um sorriso, de uma brincadeira, de um abraço, era o que me mantinha viva porque a guerra permanecia dia a dia. O som das bombas a cada passo parecia estar mais próximo, assim como os gritos de dor e os lamentos. Meus amigos a cada dia traziam mais histórias de perdas, doenças e tragédias. Elas se aproximavam dos meus amigos, da minha família, daqueles que me ajudavam e para quem eu dava suporte no campo de batalha.

Em meio a dor e sofrimento conheci a paixão. Um sentimento mais confuso que o amor que se misturava ao medo, a tristeza, a alegria, ao ciúmes. Em sua presença eu não ouvia as explosões e os tiros, em sua ausência os sons se tornavam ensurdecedores. Pensei que não poderia ouvir os lamentos, tiros e explosões mais próximos e ainda piores até que minha paixão se aproximou. Olhou para mim e disse com naturalidade que não queria lutar ao meu lado. Sem me dar margem para argumentos ou perguntas, ele se afastou. Nunca mais o vi.

Tive vontade de correr para fugir. Meus amigos não deixaram, me seguraram, me distraíram. Reduzimos o ritmo, caminhamos com calma. Aprendi a observar a beleza da amizade, do amor, do carinho e da fé. O tempo me fez esquecer.

As perdas faziam parte do nosso cotidiano, escolher o caminho errado poderia significar morte certa. Ainda que fossemos avisados dos perigos muitas vezes arriscávamos por diversão, para desafiar quem nos desafiava naquela guerra.

Nessas brincadeiras a vi mais perto do que eu já tinha visto, um passo errado e meu amigo não mais caminhava. Eu não estava ao seu lado trilhávamos passos um pouco diferentes, não pude avisá-lo a tempo, ele foi atingido e muito antes do tempo.

Seu corpo estava no chão sem vida. Parecia que iria acordar a qualquer momento, mas eu sabia que não. Seus pais lamentavam ao seu lado, não havia palavra de consolo.

Ajudamos aqueles que o amavam a se erguerem e voltei a caminhar lentamente. Neste mundo só há uma direção a seguir. Em frente. Em direção a morte.

Descobri que a guerra estava além do visível, estava em meu corpo, uma leve fraqueza de uma brincadeira na chuva poderia me acometer a doença, milhões morreriam em meu corpo. Diariamente dentro de mim, milhares morriam para me renovar e me manter viva. Se meu corpo não fosse mais capaz de se renovar, ele morreria independente dos ataques externos.

Meus pais conforme caminhavam se curvavam, cada passo parecia lhes pesar, cada vez mais frágeis, seus corpos adoeciam, seus sentidos começaram a falhar, suas mentes os enganavam, seus passos tremiam, mais e mais, reduzi meu ritmo para acompanhá-los, até que o inevitável aconteceu, os vi cair.

Primeiro chorei ao lado daqueles que já não se moviam, queria ficar com eles por toda a vida, queria te-los ao meu lado. Procurei um abrigo em que eu pudesse me esconder da vida, chorar até que a morte me encontrasse sem que eu precisasse dar mais um passo. Mas não havia esconderijo da vida, ela estava em mim.

Por mais que eu tentasse me agarrar aquele momento, tentasse retornar para a época em que estávamos juntos, eu não conseguia voltar, ninguém que eu amava estava mais para trás, apenas à frente. Meus amigos me puxaram para que eu não parasse, para que retomássemos aquele lento e constante ritmo.

Me levantei aos poucos e retomei os passos com aqueles que ainda estavam ao meu lado. Amei, ele também. Eram sentimentos mais controláveis que a paixão devastadora que eu tivera mais jovem. Eu possuía um companheiro para trilhar comigo aqueles tortuosos caminhos, para lutar junto a mim contra o inimigo que surgisse, para me avisar das áreas de risco e velar meu sono como eu ao dele.Tive dias lindos de amor.

Foi então que aconteceu, tivemos um filho. Não soube se eu havia o presenteado ou amaldiçoado com a vida, mas eu o amava mais do que eu acreditava ser possível amar. A trilha se tornou menos árdua, era possível sorrir. Ainda que aos poucos, um a um dos meus amigos caísse. Ainda que meu grupo fosse cada vez menor. Eu o via brincar e podia me sentir em paz, a vida trazia vida.

Eu já era uma sobrevivente, mas a guerra não acabava e um dia o sorriso se foi. Um acidente me deixou só. Uma bomba inusitada nos atingiu. Não houve avisos, sinais, era para ser um dia normal, mas não foi. Não havia mais pai, não havia mais família alguma. Corri.

Corri para chegar logo ao fim, eu não queria mais estar ali, não havia mais sentido lutar esta batalha, mas eu ainda estava muito distante do fim, não conseguia me atirar à morte assim. Parei de correr. Voltei a caminhar. Olhei para a minha pele. Percebi quantos anos se passaram enquanto eu fugia da vida em busca da morte. A maioria dos meus amigos haviam ficado para trás. Escolhi me isolar quando mudei o ritmo que percorria a trilha e como sempre soube, nunca há volta. Era necessário recomeçar.

A passos lentos, lembrei daqueles que amei e que um dia estiveram comigo. Todos que conheci construíram quem eu era, eu não estava só, eram parte de mim. Relembrei dos dias que me ensinaram a olhar ao redor e ver a beleza na vida. Não na batalha, naquele campo interminável de dor, de explosões inaudíveis e devastadoras. Mas nas mãos que se estendiam para ajudar ao outro, nos sorrisos retirados da esperança, na força que surgia do companheirismo.

Fiz novos amigos, mas poucos haviam chegado tão longe. Via ainda um a um cair, cair, cair, mais outra queda.

A morte não me gerava mais desespero, era natural. Alguns não tinham mais agilidade para fugir das adversidades da guerra, outros poucos que ali chegavam caiam como os meus pais.

Eu era uma vitoriosa na vida e meu premio ainda era a morte. Quando havia apenas alguns poucos ao meu lado foi que eu a vi. Não vestia preto. Não carregava uma foice, carregava sim uma paz que eu havia visto pela última vez no sorriso de minha família. Um último tropeço me levou ao chão, mas não o senti. Abaixo de mim estava uma grama fofinha e lindos olhos receptivos.

Reconheci meu filho, meu marido, meus pais e a maioria dos meus amigos. Não havia mais bombas, tiros, não havia morte. Me levantei. Não havia mais dor. Eu sabia exatamente como ela era, sabia que era uma chaga que nunca se apagaria de minha memória. Mas não podia mais senti-la, se fora de meu corpo a confusão das escolhas, o sofrimento das perdas.

O pior sentimento que tinha eram as saudades dos amigos que ali ainda não haviam chegado, mas sabia que se lutassem até o final logo estariam conosco.

Abracei os que lá já haviam chegado. Estávamos enfim em paz. Havíamos vencido a guerra. Vivemos e morremos para termos o descanso eterno.