Morte para vida

Suas gargalhadas ficaram cada vez mais raras, em seu lugar ocupavam intermináveis tosses de sufocar qualquer um que as ouvisse. Seu silencio calou sua família. Revezavam-se em turnos para esfriar com as fibras molhadas aquele pequeno corpo que um dia correra entre as ocas brincando com a energia de uma criança, animando a todos com sua inocência e curiosidade.

Não sabiam que dentro de um corpo tão pequeno havia corpos ainda menores que travavam uma batalha com inúmeros mortos tanto de aliados quanto inimigos. O que sabiam é que aos poucos os olhos brilhantes tornavam-se mais opacos, sua respiração mais pesada e sua mão não era mais capaz de erguer sozinha o chá feito para sua melhora.

O irmão mais velho era destemido, sua coragem vinha de sua paixão por saber. Sua biblioteca eram as tribos vizinhas, caminhava dias a procura de outros moradores e as vezes levava dias para conseguir se aproximar deles sem ferir suas culturas, uma lição de respeito que quase lhe custou a vida para aprender.

Sabia o que fazer e onde procurar ajuda, mas não estava certo se haveria tempo para que o socorro chegasse, aceitou arriscar nunca poder despedir-se dos grandes olhos negros de seu pequeno irmão e partiu.

Em marcha acelerada percorreu um longo caminho até uma tribo de homens e mulheres muito velhos, mas muito vigorosos. Avistou suas casas de pedra ao longe, contornadas por pequenas plantações de milho e mandioca. Ouviu também uma serie de uivos curtos, já o avistaram. Reduziu o ritmo de sua marcha, não queria ser considerado um intruso.

Chegou sob o olhar de muitos, era bastante jovem e muito viril, seus adornos muito diferentes dos utilizados na região, as mulheres o espiavam ao longe curiosas. Mas não era à procura delas que o jovem estava, não naquele momento. Pediu para falar com o pagé. Aquele lugar era para o jovem o mais exótico já visitado. Suas musicas eram doces melodias que saiam de tubos esculpidos em madeira, seus tambores eram feitos com peles de animais, seu idioma era o mais difícil até hoje por ele conhecido. Não sentia-se honrado a ponto de poder pedir ajuda a eles, mas precisava.

Explicou como pode a situação para o pagé, um senhor de cabelos brancos que andava curvado. Este compreendeu e delegou ao seu filho, um homem que poderia ser avô de nosso herói, a tarefa de acompanha-lo de volta a tribo com o remédio que poderia curar o pequeno adoecido. Preocupado com o tempo que poderiam levar para retornar em um ritmo mas lento o jovem pediu para que lhe entregassem a erva que ele mesmo a aplicaria. Mas com um sorriso compreensivo pagé-filho bagunçou o cabelo do irmão-herói, pegou algumas poucas coisas em sua casa e saiu na direção que irmão-herói veio, este apenas o seguiu. Sabia que não estava em posição de questionar, teria que acreditar que seu pequeno-irmão resistiria tempo suficiente.

Pagé-filho contudo conhecia todas as plantas da região, cantava como os pássaros, caminhava como a onça e caçava como nenhum outro animal já visto por irmão-herói. Sabia onde acampar a noite e a trilha mais plana a seguir. Chegaram mais rápido do que foi.

Quando chegaram os grandes olhos já não mais abriam, dos olhos dos pais lagrimas corriam, tristeza pelo pequeno alegria por ver vivo o grande que retornava. Mas ainda havia vida no pequeno-irmão. Ainda havia esperança.

Pagé-filho olhou para o pequeno, sua febre não o abandonou mais, a tosse intensa já cessara pela fraqueza, os lábios estavam arrocheados. Haveria tempo ainda para curar sem matar?

Aprendera de seus pais que a vida e a morte são irmãs, uma não existe sem a outra. Onde houver vida haverá morte, bem como se houver morte haverá vida.

As ervas de cura eram fortes, continham parte da morte para poder trazer de volta a vida. Teria que correr o risco, não havia outra esperança.

Enquanto macerava as folhas que trouxera lembrava das vidas que estavam depositadas naquela pasta que se formava. Cada uma se foi mostrando uma a uma, a planta correta, a dose exata, o meio preciso de se aplicar. Ainda assim, dentre milhares de plantas, como seria possível que soubessem quais poderiam usar? Sua tribo existia há varias gerações e ainda assim não pareceriam ser gerações suficientes, vidas suficientes para testar toda a infinidade de remédios que a mata lhes fornecia.

Pagé-pai certa vez contou que havia uma voz que se comunicava com ele, uma voz que conhecia toda a verdade do mundo. Pagé-filho nunca ouvira essa voz, contava aos mais novos sobre o conhecimento da voz, mas em seu interior não lhe era lógico, não acreditava nela.

Com voz ou sem voz, o remédio estava pronto e não havia tempo a perder. Ergueu a cabeça do pequeno e ofereceu uma pequena dose daquela pasta diluída em água. Ah! O pequeno ainda sabia fazer careta.

Os minutos que se seguiram foram os mais dolorosos, o pequeno tremia, virava os olhos e em convulsões. A vida e a morte estavam disputando por aquele espaço, como irmãs costumam mesmo a fazer.

O peso tomava pagé-filho, a dose teria sido maior do que a necessária para um corpo tão jovem? Era necessário acabar com o inimigo para que não voltasse mais forte, vidas partidas já lhe ensinaram isso também. Aguentou até que o pequeno-irmão acalmou, seu corpo parou de tremer, sua respiração tornou-se tranqüila.

Era a morte a vencedora?

Não. Os lábios se tornaram mais vermelhos, a febre abaixara. A dose deveria ser repetida por uma semana ao longo de todo o dia. Mas ainda havia muita vida no pequeno-irmão. Sorrisos contidos tomaram conta dos rostos da tribo. O irmão-herói se afastou para juntar a água de seus olhos a água do rio. Não queria deixar de ser visto como bravo guerreiro.

Pagé-filho sábio o seguiu.

– Olhe para mim pequeno guerreiro.

O respeito pelo pagé-filho não permitiu que seu orgulho ferido por ser chamado de pequeno, o tomasse em raiva. Levantou seu olhar como um guerreiro, ainda com olhos vermelhos.

– Por que esconde suas lagrimas?

– São minha fraqueza.

– São sua força. Um homem que não chora não é capaz de atravessar a mata para buscar ajuda e conseguir secar suas lagrimas. O homem que não chora apenas observa. Nada sente, nada busca, nada vive. Tenho orgulho do que fez pelo seu irmão.

– Um rato pode ser ágil, mas não passa de uma presa pronta para a morte.

– Rato? Não. Um filhote de onça. Volte comigo, te ensinarei a caçar. Terá em suas mãos vida e morte.

 

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